A-DORO: Federico Erra

Eu gosto muito de fotografias-retratos. Quando bem tiradas, as fotos parecem que contam toda uma história. O trabalho do italiano Federico Erra é assim: cheio de coisas pra contar, impressionante e pra lá de inspirado, criando uma atmosfera muito autoral. O jogo entre luz e contraste confere uma dramaticidade e peso lindos aos corpos e rostos e não é difícil perceber a razão pela qual Federico anda assinando dezenas de editoriais de moda mundo afora. Para ver mais dos retratos fantásticos de Erra, siga aqui.

















































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Arte é o que você quiser

Há alguns anos atrás, quando um jornalista perguntou a razão pela qual a obra My bedinstalação que trazia sua cama desfeita, coberta de objetos como remédios, calcinhas usadas, camisinhas e drogas espalhadas ao redor do móvel - era considerada uma obra de arte, e se a cama do próprio entrevistador também poderia ser arte, a artista Tracey Emin retornou a provocação: "A sua não é arte porque você nunca disse que era ou sentiu que fosse. Eu vi minha cama como uma obra de arte e senti que realmente era. Eu disse que era e a mostrei como tal. Eu transferi o que senti a respeito para os outros admirarem. Esta é a alquimia, a mágica. Eu sou a pessoa que tem de estar convicta do que é arte em primeiro lugar".



Tracey Emin é considerada um "tesouro nacional inglês", um dos maiores nomes da arte britânica e membro do "Young British Artists", grupo formado no final da década de 80, do qual o polêmico Damien Hirst também fazia parte.  E chegou a este posto ilustre valendo-se da própria vida como objeto de criação. Fazendo das tragédias pessoais, dos amores e da própria intimidade - um espetáculo para ser apreciado como obra, aberta a visitações para o público que ousar entrar em seu universo.

Visceral, sexual e muitas vezes desconcertante, Tracy ganhou uma das maiores - se não a maior - exposição restrospectiva de seu trabalho até o presente momento, em cartaz até 29 de agosto, na Hayward Gallery. Sob o título de "Love is what you want", a mostra traz dezenas de peças, que tecem uma narrativa da existência (desajustada) de Emin. Da vida na pequena cidade de Margate, ao estupro que sofreu aos 13 anos de idade. Dos amores fracassados ao aborto que fez aos 18 anos, da família de origem Turca, à solidão e o passar dos anos - a artista tira todos os esqueletos do armário. Como ela mesma diz, em busca de um entendimento de tudo. 





Na exposição, há as séries de cobertores com aplicações de retalhos que formam frases catárticas - tais como "I do not expect to be a mother, but I do expect to die alone" - seguida das famosas séries de néons, além de instalações, vídeo-artes, textos narrativos escritos à mão e algumas obras de gosto duvidoso, como  as caixas de acrílico que guardam absorventes internos, com o que creio ser sangue envelhecido.  A artista parece determinada a oferecer ao público a experiência de estar na pele de Tracey Emin. Não há barreira entre espectador e criador, a arte está no cotidiano, e é o que você quiser que seja. Existe a máxima que defende que "arte é para ser sentida e não compreendida" e, nesta exposição, ao público só é dada esta alternativa. Vale conferir.



Tracey Emin: Love is what you want (http://www.loveiswhatyouwant.com/)
Aberta todos os dias, das 10h às 17h
Em cartaz na Hayward Gallery (Southbank Centre, Belverdere Road, London SE1 8XT) até o dia 29 de agosto.
Ingresso: 12 libras.




A-DORO: Federico Erra

Eu gosto muito de fotografias-retratos. Quando bem tiradas, as fotos parecem que contam toda uma história. O trabalho do italiano Federico Erra é assim: cheio de coisas pra contar, impressionante e pra lá de inspirado, criando uma atmosfera muito autoral. O  jogo entre luz e  contraste confere uma dramaticidade e peso lindos aos corpos e rostos e não é difícil perceber a razão pela qual Federico anda assinando dezenas de editoriais de moda mundo afora. Para ver mais dos retratos fantásticos de Erra, o flickr dele está aqui.








Em busca da banda menos feia

Aconteceu em questão de horas. Se bobear, foi coisa de minutos até. Nesta capacidade fantástica de copia- cola-repassa que só as redes sociais permitem, foi instalada uma virose quase que instantânea intitulada "Oração - A banda mais bonita da cidade". No meu facebook ou twitter, não foi diferente da maioria dos brasileiros. Quem abriu a sua timeline durante aquele período e nos dias que se seguiram, viu dezenas de amigos reproduzindo e saudando o incrível clipe da incrível música apresentada pela banda paranaense. Eu, assim como você e outras milhares de pessoas, dei o play, apenas para terminar o vídeo coçando a cabeça. O quê exatamente de incrível existe naquele clipe, além da visível alegria dos envolvidos com o que estavam fazendo?

Com uma melodia simplista e uma letra mais repetitiva  e simples ainda, o grupo se filmou a cantar celebrando a arte com amigos, no maior climão à la Beirut. E pra quê o escândalo virtual, gente? Agora, com a poeira baixando e as redes sociais menos infestadas do tal vídeo, eu consigo olhar com mais calma e entender tamanha saudação. Afinal, não tá fácil pra ninguém no cenário musical brasileiro, colega. Nós sofremos uma escassez angustiante de qualidade musical no Brasil - e ouso dizer isso, mas só posso falar do alto dos meus vinte e tantos anos de vida - como nunca se viu antes. 

Em tempos onde Caetano Veloso concorre a prêmio de melhor cantor ao lado de Fiuk, Luan Santana, Michel Teló e Pe Lanza (da gloriosa Restart) - e eu não estou inventando isto! - A banda mais bonita da cidade é lucro, gente. "Oração" é incrível, pois traz na letra "penteadeira" e não frases que terminam com "desejo" e "beijo", para rimar. O clipe é tão maravilhoso, pois não é um picotado sem fim de flashs de gente na balada rebolando umas com as outras. As pessoas são tão fantásticas, pois não são adolescentes vestidos com calça skinny nas cores do arco-íris. É gente querendo fazer um som, mesmo que sem orçamento - e aqui não vou nem falar da qualidade musical - e não gente produzida pra ser garoto-propaganda de refrigerante quando a música do grupo virar hit, muito menos cantora de axé que posa pra caixa de shampoo tonalizante.

A banda mais bonita da cidade, é a mais bonita...porque é a menos feia. Então, está perdoada a histeria coletiva. Tá todo mundo sedento por algo que soe - mesmo que em um longínquo horizonte como o som do  pessoal do Paraná - com música de verdade. Aliás, lanço um desafio: quem conseguir fechar uma mão com artistas de qualidade que atingiram algum sucesso no país nos últimos três anos, ganha um ingresso para ver A Banda mais bonita da cidade. Isso, claro, se alguém conseguir lembrar deles daqui há uma semana. E digo isso já pedindo perdão pela maldade. Mas no fundo, no fundo, você sabe que só compartilhou esse vídeo porque não tem nada melhor acontecendo. Aqui entre nós. Confessa, vai? ;)

A-DORO: Michele White

 Existe algo dramático e, ainda assim, infantil nas ilustrações da americana Michele White, que utiliza tinta, grafite, papel texturizado e madeira para criar suas produções.  Os personagens, com os olhos grandes e melancólicos, são produzidos com base em tons pastéis e muito contraste de sombras, o que dá esse visual incrível e único. Morando na Califórnia, Michele já foi escalada para ilustrar inúmeros livros e produtos e você pode conferir mais trabalhos da artista no blog dela.





Conto inacabado

E tudo não está, de fato, inacabado, mesmo que a vida chegue realmente ao fim? 

Fosse eu uma pessoa com a mínima sensibilidade para mentir de maneira convincente, inventaria alguma boa desculpa para este conto estar inacabado. Melhor. Ainda faria uso deste mote para me locupletar, dizendo que estou lançando um novo gênero literário. O primeiro conto não-acabado da história da literatura, a maior afronta à escrita linear - sem início, meio e fim – a inovação que consegue, por fim, emergir fazendo com que esta história fique no ar e continue, infinita, para deleite do público que ousar preenchê-la com os seus próprios finais. Eu poderia. Mas as mesmas mãos capazes de escrever ficção não são capazes de escrever mentiras. A mim este dom foi negado - extraído da minha genética - e me considero menos privilegiada do que aqueles que conseguem ter a mentira como aliada. 

Pois bem, eu não vou tentar enganar você, leitor, dizendo que você lerá uma história completa. Tanto que, para poupá-los do serviço de seguir mais um parágrafo nesta enrolação, aviso logo nas primeiras linhas que esta história não irá levá-lo a lugar nenhum, muito menos deixá-lo com alguma lição para pensar no fim do dia. Não tenho personagens, nem enredo, nem um ápice na trama. Escrever um conto inacabado talvez seja a maior liberdade que alguém possa ter. Eu vou terminar quando eu quiser. Onde a preguiça me pedir para parar, assim sem avisar. Nem a você, nem a ninguém. 

Se você insiste em continuar por estas linhas, é porque assim como eu e esta história, encontra-se com tanta coisa inacabada em sua própria vida, que não vai fazer mal acabar um conto inacabado. Pelo contrário, já é um começo. Um anúncio de que somos capazes de sermos finitos em algo. Aos mais ansiosos em manterem-se fiéis à causa inacabada, aviso que finalizar um conto que não tem fim é o menor dos problemas. Afinal, terminar uma história escrita por terceiros, não significa terminar nada na sua própria vida. De certa forma, é um atraso. Uma desculpa esfarrapada, um desvio no percurso rumo à tarefa de acabar as coisas que você deixou pendente.

Estamos então todos no mesmo complô. Eu fingindo que tenho algo para escrever, você fingindo que tem algo para ler. E nós, passando o tempo, como quem não tem nada mais para fazer. Não é bom assim?